31 de jan. de 2012

Agridoce

Ela era amarga. De todos os sorrisos, sempre conseguia extrair alguma dor, afinal, era aquilo que a mantinha viva. Tinha necessidade da injeção de angústia e de tormenta para, quem sabe, se sentir melhor. Não recebia a felicidade, pois a tristeza já estava hospedada em si. Ela era azeda. Transmitia, através dos teus olhos de extrema ressaca, o desdém. De sua boca, saía a negligência. De seus ombros, a indiferença. De seu toque, o afastamento. Não havia quem a amasse, assim. Ela era salgada. Não hesitava na hora de jorrar as palavras mais diretas e magoantes. Tinha, como mania, dilacerar o peito daquele que a subestimava, “e as consequências que se danem!”. Ela era picante. Enfeitiçava o seu redor com ardor. Apimentava a fogueira de todas as desavenças, por prazer. Borbulhava o sangue de quem a fitava, por se sentir menor. Ela era menor. Ao chegar em casa, ela era doce. Feito mel, se culpava por tanto mal. Por tanta dor. Não se olhava no espelho, por medo da chuva de lágrimas. Não abria a janela, por medo da chuva de pedras. Não fazia questão de sua existência, pois sentia ódio de sua pessoa. Mas como pode um alguém doce, ter ódio no coração? Ela era agridoce, então.

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