Desde pequeno costumo brincar de ser e estar. Meus pais nunca souberam quem eu era, de fato. Hora me imaginavam como Shakespeare, quando me viam falar o quanto o amor nos envolve quando nos atinge, hora me imaginavam como Tom Jobim, quando me pegavam observando as águas de março fecharem o verão.
O que eles não faziam ideia eram dos porquês. Me levaram a psicólogos, psiquiatras e a todos aqueles profissionais que começavam com “psico”. Nenhum destes, porém, obteve sucesso. “De onde esse menino veio?”, “de que planeta o mandaram?”, se perguntavam. Era tão difícil entender um menino como eu que acabei, eu mesmo, me tornando um enigma, um segredo jamais revelado.
Mas esta é a minha forma de engarrafar a dor, a saudade. Minha forma de evitar que me embriague de tristeza. O poder de ser eu, você, de ser quem eu quiser e a hora que quiser. Hoje sou Chico, amanhã serei Che, depois de amanhã serei Jack ou até mesmo Rose. Mas eu? Bem… nem eu sei na verdade quem eu sou. Ou não sabia até ontem.
Acordei como num dia qualquer. O sol estava forte, já devia ser quase meio-dia. Caminhei, meio sonolento, até a sala. Olhei em volta e ninguém estava em casa, como de costume. Liguei o rádio, que tocava um cd de Caetano Veloso. Fui andando até a cozinha enquanto cantarolava “Sozinho”, pois era assim que eu me sentia, de fato. Aquele seria mais um dia como qualquer outro. Abri a geladeira e a fitei como quem quisesse devorar tudo. Ali, sem dúvidas, era o Marquês de Rabicó. Peguei um copo de suco de laranja e segui até a janela. Como sempre, o padeiro tentava organizar uma fila de clientes, o carteiro discutia com o porteiro sobre os gols da rodada, uma moça alta, de óculos, cabelos loiros organizados em um coque alto e usando um vestido rodado cor de pêssego, andava por ali… epa! Eu nunca a tinha visto antes.
De imediato, meu coração começou a palpitar e uma vontade imensa de conhecê-la tomou meu corpo. Repentinamente, eu já estava descendo as escadas do prédio e saindo portaria a fora. Olhava para os lados procurando-a, desesperado. Onde ela estava?
Longe, no fim da rua, em frente a uma floricultura, avistei em meio àquele mar de flores, o vestido cor de pêssego. Corri até não poder mais, esbarrando em barracas, tropeçando em buracos, até chegar a sua frente.
Ela exibia um sorriso surpreso e foi nesse momento que me dei conta de quem eu era. Era um menino como outro qualquer, cheio de momentos e incertezas. Eu era um menino apaixonado, e ainda sou.
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