Ponho-me de pé em frente a uma janela. Como numa televisão, vejo a tarde passar, vazia que só ela. Na rua, fumaça. O céu, o sol, a chuva. Pessoas andando rapidamente como se fossem verdadeiros carros, que também deslizam ligeiros pelo asfalto, como se não pudessem perder nem quase um segundo. Vendedores buzinam suas mercadorias e, na minha mente, quem buzina é a fantasia. Por mais que tudo esteja rodando do lado de fora da janela, o mundo todo dentro dela é pequeno pra mim.
Ter meu próprio mundo dentro de uma caixinha-cérebro de memórias me permite viajar por realidades completamente diferentes daquelas que se encontram do outro lado da televisão, da janela. No lugar de ruas, carros e placas, vejo veludos, cetins e flores em você. Ouço a melodia que sai pelo rádio dos meus pensamentos e me transformo num poço de sensibilidade. Sensibilidade escondida na gaveta e que, mais tarde, vira sinônimo de força. Força de vontade.
Nesse momento, até voar é possível. Enxergar, da pedra mais alta, o ar, o movimento e o canto. Molhar os pés na primeira onda e inalar a brisa, me entregando ao vento, me sentindo em casa. A casa que eu deixei há tanto tempo.
A saudade bate, os olhos abrem e estou eu, de pé, em frente a uma janela, vendo a tarde passar. Um sorriso surge no meio da rua e, sem nem pensar, sorrio de volta. Vejo, dentro dele, todas as minhas vontades, necessidades, medos. Tudo aquilo que já passou por dentro de mim, ou que irá passar um dia. Vejo, também, todas as impossibilidades do meu mundo, toda a angústia de um querer distante do poder, toda aquela adoração por sorrisos sinceros. Tudo aquilo que é meu, se refletindo no outro. Num primeiro momento, me assusto. Mas, pensando bem, deve ser só meu reflexo perdido por aí…
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