5 de mai. de 2012

Dentro de mim

Ainda o amo. Não tenho porque negar, esconder ou enganar. Ainda o amo e o considero meu par, como se nosso término fosse apenas um intervalo de tempo para o destino finalizar a escrita da história de nossas vidas. Ainda o tenho. Firme, forte e musculoso dentro de mim. Ainda o tenho em meu fígado, rins, veias, artérias e vísceras, correndo pelo meu corpo e confundindo minha mente com tamanha grandeza de espírito, dominadora de mim. Ainda o desejo. Não vejo motivos para não. Ainda o desejo, o clamo, o venero, o chamo em meus sonhos, como se vivesse em um pesadelo onde só a chama de seu amor pudesse me salvar. E não tem porque negar. Ainda o amo… e sinto sua falta. Sinto sua calma e o batucar leve de um sentimento que não virá a cessar.
24 de abr. de 2012

Em minha esquina

  Querido Gael,

   Não existem mais palavras que eu possa escrever pra falar de tanto amor. Ficaria até repetitivo dizer que, para mim, não há nada mais importante do que teu ato de respirar, nada mais dilacerante do que tuas costas ao partir, nada mais lindo do que o sol quando vai de encontro ao teu olhar.
  A verdade, Gael, é que eu ainda sinto. Sinto o cheiro, a cor, a alegria de tua presença. Eu sinto o amor. Manso amor, de jeito teu. Forte amor, de jeito meu. Nosso amor, de jeito céu. E é por isso que estou aqui, limpa, pura e Clara, escrevendo essa carta de pedido e de vontade, pois percebi que não há mais calor sem tua voz de riacho, sem tua pele de amêndoa, sem você em minha esquina.
  Então fica. Fica, porque não há motivos para pedir sua volta, se você não foi a nenhum lugar. Fica, pois só assim poderemos viajar o mundo em uma única cabana à beira mar. Fica, para, contra as correntezas desse Rio de saudade, a gente remar. E re-amar.


        De alguém que te quer de verdade.
25 de fev. de 2012

Vinte e dois

Passa hora, passa dia, passa tempo. Continuo eu, aqui, no meio de um imenso rio de opiniões, procurando a melhor forma de atravessá-las sem ferir a canoa que, nesse momento, é a única coisa que me protege. A casca de madeira que me separa das ideias contrárias aos tic tacs do meu coração. Remo contra uma correnteza que traz consigo novas figuras, novas pessoas, novos olhares. A todo canto, nada. Nada além do rio que nos parte em dois. Meus braços doem, meu fôlego diminui cada vez mais. Olho para trás… quanta coisa. Um sol se pondo, um beijo a dois, uma cabana. Copacabana. A vontade de seguir em frente toma meu corpo novamente, e me jogo contra as desconhecidas e infinitas águas que alinham meu horizonte. Ano que vem ainda estarei eu, aqui, no meio desse imenso rio de opiniões. Pra sempre estarei eu, aqui, remando contra tudo e todos, a procura do que foi prometido há pouco mais de muito tempo: o infinito de nós dois.

Coberta

E nesse exato momento eu me escondo. Me fecho no casulo de meu quarto. Eu sou lagarta, molhada, molhada de vermelho e lágrima. Eu sou lagarta, ainda não preparada, me enrolando num cobertor de mesmices não tão dentro da rotina. Cobertor de memórias, de problemas, de busca. Busca de soluções. Fuga de problemas. Eu sou lagarta que foge, eu sou lagarta que busca. Busca a superação de uma borboleta. Mas, nesse exato momento, eu ainda me escondo…

Eu não sou Chico, mas quero tentar

Desde pequeno costumo brincar de ser e estar. Meus pais nunca souberam quem eu era, de fato. Hora me imaginavam como Shakespeare, quando me viam falar o quanto o amor nos envolve quando nos atinge, hora me imaginavam como Tom Jobim, quando me pegavam observando as águas de março fecharem o verão.

O que eles não faziam ideia eram dos porquês. Me levaram a psicólogos, psiquiatras e a todos aqueles profissionais que começavam com “psico”. Nenhum destes, porém, obteve sucesso. “De onde esse menino veio?”, “de que planeta o mandaram?”, se perguntavam. Era tão difícil entender um menino como eu que acabei, eu mesmo, me tornando um enigma, um segredo jamais revelado.

Mas esta é a minha forma de engarrafar a dor, a saudade. Minha forma de evitar que me embriague de tristeza. O poder de ser eu, você, de ser quem eu quiser e a hora que quiser. Hoje sou Chico, amanhã serei Che, depois de amanhã serei Jack ou até mesmo Rose. Mas eu? Bem… nem eu sei na verdade quem eu sou. Ou não sabia até ontem.

Acordei como num dia qualquer. O sol estava forte, já devia ser quase meio-dia. Caminhei, meio sonolento, até a sala. Olhei em volta e ninguém estava em casa, como de costume. Liguei o rádio, que tocava um cd de Caetano Veloso. Fui andando até a cozinha enquanto cantarolava “Sozinho”, pois era assim que eu me sentia, de fato. Aquele seria mais um dia como qualquer outro. Abri a geladeira e a fitei como quem quisesse devorar tudo. Ali, sem dúvidas, era o Marquês de Rabicó. Peguei um copo de suco de laranja e segui até a janela. Como sempre, o padeiro tentava organizar uma fila de clientes, o carteiro discutia com o porteiro sobre os gols da rodada, uma moça alta, de óculos, cabelos loiros organizados em um coque alto e usando um vestido rodado cor de pêssego, andava por ali… epa! Eu nunca a tinha visto antes.

De imediato, meu coração começou a palpitar e uma vontade imensa de conhecê-la tomou meu corpo. Repentinamente, eu já estava descendo as escadas do prédio e saindo portaria a fora. Olhava para os lados procurando-a, desesperado. Onde ela estava?

Longe, no fim da rua, em frente a uma floricultura, avistei em meio àquele mar de flores, o vestido cor de pêssego. Corri até não poder mais, esbarrando em barracas, tropeçando em buracos, até chegar a sua frente.

Ela exibia um sorriso surpreso e foi nesse momento que me dei conta de quem eu era. Era um menino como outro qualquer, cheio de momentos e incertezas. Eu era um menino apaixonado, e ainda sou.

31 de jan. de 2012

À Bernardo

Estranho o tempo não alterar, mas fortalecer. A prova disso é o abraço sincero, após longos meses sem nos vermos. Sincero, silencioso, saudoso. Abraço que permite o reencontro de nossos corações, acelerados de ansiedade, na fração de segundo em que os corpos estão juntos.

Estranho o silêncio não desgastar, mas amadurecer. Amadurecer as ideias, os pensamentos e as desavenças. Metamorfoseá-las em sorrisos, em janelas abertas e em reconciliações. Em alegria. Você é minha alegria.

Estranho a distância não distrair, mas aproximar. Estranho a saudade não perecer, mas apertar. Estranho o amor não sucumbir, mas vigorar. É isso. Eu te amo e te amei desde o dia em que minhas palavras encostaram nas tuas pela primeira vez. Desde o dia em que meu sorriso foi de encontro ao teu pela segunda vez. Desde todos os dias em que você me fez feliz pela milésima vez.

Tenho, guardados em mim, todos os momentos em que respirávamos o mesmo ar e dividíamos o mesmo espaço. Em que estava ao teu lado, à tua frente, ao teu alcance. Em que meu olhar caminhava em sintonia ao teu e, juntos, não se soltavam em hipótese alguma. Por discórdia do destino, se soltaram.

Hoje, minhas mãos procuram pelas suas em um quarto escuro. Com receio de não encontrá-las mais, toco meu peito e sinto o apanhar de meu coração. É ali que você está, esteve e sempre estará. Batendo forte esse sentimento que não tem nome e nem explicação. Não é irmandade, não é amizade. É diferente de tudo. É tudo. Meu tudo.

Agridoce

Ela era amarga. De todos os sorrisos, sempre conseguia extrair alguma dor, afinal, era aquilo que a mantinha viva. Tinha necessidade da injeção de angústia e de tormenta para, quem sabe, se sentir melhor. Não recebia a felicidade, pois a tristeza já estava hospedada em si. Ela era azeda. Transmitia, através dos teus olhos de extrema ressaca, o desdém. De sua boca, saía a negligência. De seus ombros, a indiferença. De seu toque, o afastamento. Não havia quem a amasse, assim. Ela era salgada. Não hesitava na hora de jorrar as palavras mais diretas e magoantes. Tinha, como mania, dilacerar o peito daquele que a subestimava, “e as consequências que se danem!”. Ela era picante. Enfeitiçava o seu redor com ardor. Apimentava a fogueira de todas as desavenças, por prazer. Borbulhava o sangue de quem a fitava, por se sentir menor. Ela era menor. Ao chegar em casa, ela era doce. Feito mel, se culpava por tanto mal. Por tanta dor. Não se olhava no espelho, por medo da chuva de lágrimas. Não abria a janela, por medo da chuva de pedras. Não fazia questão de sua existência, pois sentia ódio de sua pessoa. Mas como pode um alguém doce, ter ódio no coração? Ela era agridoce, então.
20 de jan. de 2012

Amizade


De manhã, um telefonema só pra te acordar. Durante o dia, quatro mil mensagens pra te confortar e uma piada pra te fazer sorrir. Pra eles, seu sorriso é tão ou mais importante do que a própria felicidade dos mesmos. Seu bem estar, é o ótimo estar deles. Seu bom humor, a mais sincera risada. Os momentos bons passam em segundos, os ruins em minutos. Ao seu lado, até mesmo as lágrimas secam com rapidez. Cada palavra é música, é aprendizado, é poesia. Cada abraço é um curativo no coração e cada passo é dado em direção ao melhor. São quem nunca vão te abandonar, nunca vão te deixar cair, sempre vão acompanhar sua caminhada, e de mãos dadas.

Meus olhos do mundo

Ponho-me de pé em frente a uma janela. Como numa televisão, vejo a tarde passar, vazia que só ela. Na rua, fumaça. O céu, o sol, a chuva. Pessoas andando rapidamente como se fossem verdadeiros carros, que também deslizam ligeiros pelo asfalto, como se não pudessem perder nem quase um segundo. Vendedores buzinam suas mercadorias e, na minha mente, quem buzina é a fantasia. Por mais que tudo esteja rodando do lado de fora da janela, o mundo todo dentro dela é pequeno pra mim.

Ter meu próprio mundo dentro de uma caixinha-cérebro de memórias me permite viajar por realidades completamente diferentes daquelas que se encontram do outro lado da televisão, da janela. No lugar de ruas, carros e placas, vejo veludos, cetins e flores em você. Ouço a melodia que sai pelo rádio dos meus pensamentos e me transformo num poço de sensibilidade. Sensibilidade escondida na gaveta e que, mais tarde, vira sinônimo de força. Força de vontade.

Nesse momento, até voar é possível. Enxergar, da pedra mais alta, o ar, o movimento e o canto. Molhar os pés na primeira onda e inalar a brisa, me entregando ao vento, me sentindo em casa. A casa que eu deixei há tanto tempo.

A saudade bate, os olhos abrem e estou eu, de pé, em frente a uma janela, vendo a tarde passar. Um sorriso surge no meio da rua e, sem nem pensar, sorrio de volta. Vejo, dentro dele, todas as minhas vontades, necessidades, medos. Tudo aquilo que já passou por dentro de mim, ou que irá passar um dia. Vejo, também, todas as impossibilidades do meu mundo, toda a angústia de um querer distante do poder, toda aquela adoração por sorrisos sinceros. Tudo aquilo que é meu, se refletindo no outro. Num primeiro momento, me assusto. Mas, pensando bem, deve ser só meu reflexo perdido por aí…

Santuário

Ali, as palavras se perdiam nas ondas do mar. Os dedos dos pés se encontravam por debaixo da areia e as bocas, unidas por um Rio só, se movimentavam como a cauda de uma sereia. O vento, frio e constante, levava todos os males pelos fios dos cabelos esvoaçantes, fazendo do medo de amar, um errante. Era dia, era noite, era eterno. Aos poucos, as palavras eram devolvidas como pequenas conchas pelas ondas do mar. Os dedos dos pés, de esconde-esconde pararam de brincar e das bocas, distantes uma da outra, saíam os fragmentos de saudade mais doces de se escutar. É dia, é noite, é eterno.